Desigualdade e risco
Esta página usa dois conjuntos de dados sobre os municípios brasileiros. O primeiro é o índice de risco climático do AdaptaBrasil, a plataforma do governo federal que calcula riscos do clima por município. Ele tem ano de base 2020 e um cenário para 2030. O segundo é a razão salarial, isto é, quanto um grupo de trabalhadores ganha em relação a outro, medida no emprego formal de 2024. O risco de estresse hídrico, a falta de água, projetado para 2030 sobe em todos os 5.570 municípios avaliados. A mediana do índice, o valor do meio, passa de 0,5 para 0,68. Dos 9 índices comparados, 8 sobem na maioria dos municípios.
O índice de risco já inclui renda e emprego na sua fórmula, na parte que mede a capacidade de adaptação. Um município com renda baixa recebe um índice mais alto, porque tem menos condições de enfrentar o mesmo evento. A ameaça climática, outra parte do índice, não inclui renda. Ela é a única das três partes do índice que o AdaptaBrasil projeta para o futuro. Por isso, o cenário de 2030 aplica o clima daquele ano à sociedade do ano de base.
A comparação é feita por quartil de razão salarial, isto é, em quatro grupos com o mesmo número de municípios, e por porte de município. O coeficiente mede quanto as duas medidas variam juntas. O maior coeficiente encontrado, em qualquer das comparações, chega a 0,431 em valor absoluto. A relação entre risco e desigualdade salarial fica menor quando a análise leva em conta o porte do município. Isso acontece porque um município grande tem, ao mesmo tempo, mais emprego formal e outro tipo de risco. A razão salarial é medida em três comparações: mulheres e homens; pessoas pretas, pardas e indígenas e pessoas brancas e amarelas; e a combinação das duas.
Esta página compara dois retratos de um momento, e não duas séries ao longo do tempo. Cada retrato tem o seu ano. O AdaptaBrasil publica cada índice numa data própria, e a razão salarial vem do registro de emprego formal de 2024. O índice que mais muda entre o ano de base e o cenário de 2030 sobe em 5.570 municípios. 2 dos 9 índices não descem em nenhum município.
O coeficiente mostra se duas medidas variam juntas, mas não mostra que uma causa a outra. A desigualdade é medida só no emprego formal. Onde há muito trabalho informal, o número descreve apenas a parte registrada do mercado de trabalho. Como o índice de risco inclui renda na fórmula, parte da relação entre risco e desigualdade vem da própria construção do índice. Quem interpretar o resultado precisa levar esse efeito em conta.
Quanto o risco sobe até 2030
Nove dos doze índices municipais do AdaptaBrasil têm projeções para 2030. Os dois índices de energia têm projeção para 2055, e o de integridade do bioma, para 2040. Cada barra mostra a variação média do índice entre o ano de base e 2030, no cenário pessimista de cada setor. Assim, a barra mostra só a mudança projetada, sem o nível de risco que já existe.
▸ variação média do índice entre o ano de base e 2030
Cada barra é a variação média do índice, que vai de zero a um, no conjunto dos municípios. A barra à direita indica risco maior em 2030 do que no ano de base. O cenário é o pessimista de cada setor, e ele muda de um setor para outro. O setor de recursos hídricos usa o cenário SSP5-8.5, e os demais usam o RCP8.5. Os dois são cenários do IPCC, o painel científico da ONU sobre mudança do clima, com emissões altas.
- estresse hídrico0,18
- disponibilidade de alimentos0,115
- acesso e consumo de alimentos0,095
- deslizamento de terra0,092
- arboviroses0,033
- inundação e enxurrada0,02
- malária0,019
- leishmaniose tegumentar0,016
- leishmaniose visceral-0,023
Em 8 dos 9 índices, o risco sobe na maioria dos municípios. Em 2 deles, o risco não cai em nenhum município. A leishmaniose visceral é a exceção: o risco cai em 3.888 municípios. Isso acontece porque a doença depende de uma faixa de temperatura, e o aquecimento tira parte do território dessa faixa.
A diferença entre o cenário otimista e o pessimista é pequena em 2030, e isso é esperado. Os dois cenários de emissão só se separam de fato na segunda metade do século, e 2030 está a menos de cinco anos. Por isso, a escolha do cenário muda pouco o resultado nesta década e muda muito nas décadas seguintes.
A desigualdade acompanha o risco ou o tamanho do município?
A tabela mostra quatro coeficientes para cada índice. Eles separam a relação com a desigualdade de dois outros efeitos: o da fórmula do índice e o do porte do município. O índice de risco inclui renda e emprego na fórmula, e a ameaça climática não inclui. Municípios maiores têm salários mais desiguais e mais área urbana exposta, e isso aumenta os dois valores comparados.
O caso da ameaça de inundação ajuda a entender a tabela. Essa ameaça acompanha a desigualdade salarial com coeficiente de 0,431, um valor que costuma ser descrito como relação moderada. Quando o cálculo desconta o tamanho do mercado de trabalho formal, o mesmo coeficiente cai para 0,059. Isso significa que quase toda a relação vinha do tamanho do município: os municípios grandes têm, ao mesmo tempo, mais desigualdade salarial e mais ameaça de inundação.
A fórmula do índice também afeta a comparação, no sentido contrário. O índice de risco do AdaptaBrasil combina ameaça, exposição e vulnerabilidade. A vulnerabilidade inclui a parte da renda que fica com os vinte por cento mais pobres e o índice Firjan de emprego e renda. Por isso, comparar esse índice com a desigualdade mede, em parte, a própria fórmula dele. Comparar só a ameaça climática não tem esse problema. As duas colunas aparecem lado a lado, para que a diferença entre elas fique visível.
Depois dos dois ajustes, a relação que sobra é fraca nos nove índices. Isto significa que, no país como um todo, os dados não mostram a desigualdade do emprego formal e o risco climático projetado crescendo juntos. Para procurar a relação, é preciso comparar municípios de tamanho parecido. A seção seguinte faz essa comparação.
Dentro de cada faixa de tamanho
Os municípios foram divididos em quatro grupos com o mesmo número de municípios, ordenados pelo número de empregos formais. A relação entre desigualdade e risco foi medida dentro de cada grupo. É o mesmo cálculo da coluna sem o porte, separado em quatro grupos para mostrar onde a relação aparece.
A relação é fraca nos três primeiros grupos e mais alta no grupo dos municípios maiores. Mesmo ali, ela continua modesta. Nos municípios com mais de quatro mil empregos formais, a desigualdade salarial acompanha o risco projetado de estresse hídrico. Nos municípios menores, não acompanha. O grupo dos maiores é também aquele em que a medida de desigualdade salarial é mais estável, porque ela é calculada sobre muitos salários.
Municípios no topo das duas medidas
Para a política pública, a pergunta é mais simples do que o coeficiente: quantos municípios estão, ao mesmo tempo, no quarto mais desigual e no quarto de maior risco projetado? A tabela mostra ao lado quantos municípios estariam nessa situação por acaso. Assim, quem lê pode ver se há concentração ou só coincidência.
No estresse hídrico, 554 municípios estão ao mesmo tempo no quarto mais desigual e no quarto de maior risco. Por acaso, seriam 348. Nesses municípios estão 43,3% dos empregos formais do país. Essa parte é grande pelo mesmo motivo de antes, o tamanho: o grupo reúne municípios grandes, que concentram empregos e salários muito diferentes entre si.
Por estado, esses municípios estão concentrados no Nordeste e em São Paulo, por motivos diferentes. No Nordeste, o índice de estresse hídrico já é alto no ano de base, e a desigualdade salarial acompanha a estrutura do emprego formal local. Em São Paulo, os municípios entram na lista pelo tamanho do mercado de trabalho.
São Bento · PB
desigualdade salarial 181,36% · risco 0,84 · 3.598 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaCasinhas · PE
desigualdade salarial 180,96% · risco 0,83 · 562 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaUnião · PI
desigualdade salarial 172,72% · risco 0,81 · 5.851 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaBarra dos Coqueiros · SE
desigualdade salarial 172,98% · risco 0,8 · 5.495 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaMaceió · AL
desigualdade salarial 149,57% · risco 0,87 · 313.616 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaRecife · PE
desigualdade salarial 133,19% · risco 0,94 · 746.127 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaFortaleza · CE
desigualdade salarial 140,9% · risco 0,88 · 931.198 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a fichaTeresina · PI
desigualdade salarial 141,84% · risco 0,87 · 337.548 empregos formais
nos dois toposver tambémabrir a ficha
A mesma diferença, medida por mês e por hora
O salário mensal depende de duas coisas: o valor pago por hora e o número de horas contratadas. O salário por hora mostra só o valor pago por hora. A diferença entre as duas razões mostra quanto da diferença no salário mensal vem da jornada de trabalho. Essa diferença não é a mesma para gênero e para raça ou cor.
Entre mulheres e homens, a jornada de trabalho explica boa parte da diferença no salário do mês. A razão mediana, isto é, o valor do meio entre os municípios, é 1,01 no salário do mês e 1,08 no salário por hora. Em 729 municípios, a razão fica abaixo de um no salário do mês e chega à igualdade no salário por hora. O número de municípios em que a mulher recebe menos cai de 2.284 para 1.807 quando a comparação usa o salário por hora.
Na comparação por raça ou cor, acontece o contrário: o salário por hora aumenta a diferença. A razão mediana cai de 0,84 no salário do mês para 0,79 no salário por hora. Ela cai em 3.367 municípios e sobe em 1.160. Isso significa que a desvantagem de pessoas pretas, pardas e indígenas é maior no valor pago por hora do que no salário do mês. Por isso, essa diferença não vem do número de horas contratadas. Quando gênero e raça ou cor são considerados juntos, a razão mediana é 0,8 no salário do mês e 0,81 no salário por hora.
O que a agenda do governo explica sobre essa falta
Esta página só conseguiu responder parte da sua pergunta. Segundo a tese de doutorado usada na página da agenda, parte do que o país mede hoje foi decidida pela agenda do governo.
Faltam duas coisas nesta página. Falta uma medida social projetada para 2030, para comparar com o risco projetado. Também falta a renda de quem trabalha sem carteira assinada. O levantamento das atas do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima mostra que 5 dos 18 instrumentos previstos na Política Nacional sobre Mudança do Clima nunca foram definidos. Um deles é o monitoramento climático nacional. Um modelo de IA (Claude) ligou as duas faltas a esse fato.
O modelo também ligou ao mesmo fato a forma da projeção usada nesta página. O AdaptaBrasil projeta a ameaça climática, que é o que os modelos de clima produzem, e mantém a sociedade no ano de base. Projetar a estrutura social exigiria uma decisão de método, e nenhum dos instrumentos definidos trata disso. Nessa leitura, a falta de uma série social projetada é o mesmo fato descrito na página da agenda.