Decretos e desastres
As prefeituras brasileiras assinam decretos de desastre. O Banco Mundial publica a chuva do mesmo território, estimada numa grade de reanálise. Esta página compara as duas séries dentro de cada estado. São 40 pares calculados por estado, em 33 anos em que as duas séries existem. Em 24 dos 24 estados com dados suficientes, os anos com mais chuva têm mais decretos de enchente. Em 15 de 16, os anos com menos chuva têm mais decretos de seca.
O coeficiente de correlação desta página é um número entre menos um e mais um. Ele mede o quanto a variação anual de duas séries acontece junta. O sinal mostra o sentido. O sinal é positivo quando os anos com chuva acima da média têm mais decretos, e negativo quando têm menos. O sinal muda com o tipo de decreto, porque a seca e a enchente reagem à chuva em sentidos opostos. Ele também muda com a escala, porque um estado e o país reúnem áreas com climas diferentes.
Os estados não reagem do mesmo jeito à mesma série de chuva. Com a medida de dias secos consecutivos, o coeficiente vai de -0,516 num extremo a 0,643 no outro, com sinais opostos. Para o país inteiro, o par chuva e enchente dá 0,371, porque o total junta a seca de um estado com a enchente de outro.
Esta página testa o resultado de três formas. A primeira repete a comparação com uma segunda fonte de chuva, medida em estações meteorológicas. A segunda usa a escala de uma bacia hidrográfica e troca a chuva pela vazão do rio, isto é, a quantidade de água que passa por ele. A terceira troca a medida de seca: usa os dias secos consecutivos no lugar do total anual de chuva. Nesse teste, os estados dão resultados diferentes entre si.
Estes coeficientes comparam o tempo meteorológico com os decretos assinados pelas prefeituras. Eles descrevem a resposta das prefeituras, e não contam os desastres que aconteceram. A correlação mostra que duas séries variam juntas, mas não prova que uma causa a outra. O coeficiente do país tem sinal contrário ao dos estados. Por isso, ele precisa ser lido à parte e não resume os resultados dos estados.
Chuva e decreto de enchente, por estado
Nenhum dos 24 estados vai no sentido contrário: em todos, o ano mais chuvoso também tem mais decretos de enchente. Para o país inteiro, a mesma chuva dá 0,371, porque o total junta a chuva de um estado que teve enchente com a de outro que teve seca. O coeficiente usa a variação de um ano para o outro. Os decretos das prefeituras são somados por estado, e a chuva vem da série do World Bank CCKP, o portal de dados do clima do Banco Mundial, para o mesmo estado. Entram os estados com quinze anos em comum e dez variações seguidas.
▸ Desastre hidrológico registrado por município × Precipitação anual acumulada no Brasil
A barra parte do meio. Ela vai para a esquerda quando o coeficiente é negativo e para a direita quando é positivo. O número à direita também mostra o sinal. Para o país inteiro, este par dá 0,371. Nos 24 estados com dados suficientes, o coeficiente vai de 0,024 a 0,774.
- PR · Sul0.024
- RO · Norte0.193
- GO · Centro-Oeste0.242
- MS · Centro-Oeste0.299
- TO · Norte0.301
- MT · Centro-Oeste0.348
- AP · Norte0.359
- PA · Norte0.397
- SP · Sudeste0.400
- MG · Sudeste0.451
- PI · Nordeste0.471
- AC · Norte0.484
- AM · Norte0.508
- ES · Sudeste0.536
- BA · Nordeste0.543
- MA · Nordeste0.546
- RS · Sul0.547
- RJ · Sudeste0.565
- SC · Sul0.600
- AL · Nordeste0.602
- CE · Nordeste0.654
- PE · Nordeste0.671
- PB · Nordeste0.671
- RN · Nordeste0.774
A chuva média acompanha os decretos nos dois sentidos. Com o decreto climatológico, que é o de seca, o coeficiente do país é −0,39. No Ceará, ele chega a −0,894, e na Paraíba, a −0,845. Nesses estados, a variação da chuva de um ano para o outro acompanha quase toda a variação dos decretos de seca. Com o decreto hidrológico, que é o de enchente, a mesma série de chuva dá +0,37 no país e +0,774 no Rio Grande do Norte. Em Pernambuco e na Paraíba, dá +0,671.
Os dois sinais opostos vêm da mesma medida física: a mesma série de chuva, do mesmo estado. Ela desce quando um tipo de decreto sobe e sobe quando o outro sobe, porque os dois tipos de decreto contam coisas diferentes. Antes de os decretos serem separados por tipo, os dois movimentos entravam numa contagem só e se cancelavam. Era isso que mantinha pequeno o coeficiente do país.
A segunda medida física não tem o mesmo sinal em todos os estados, e esta página mostra isso junto com o resultado. A relação entre os dias secos consecutivos e o decreto de seca muda de sinal de um estado para outro: vai de -0,516 em SP a 0,643 em AM. O resultado estaria confirmado se as duas medidas da seca concordassem com os decretos. Hoje, só uma delas concorda.
O par mais forte da seção anterior não aparece aqui. As séries Área queimada, Maior acumulado de chuva em cinco dias, Dias com chuva acima de 20 mm só existem nesta base para o país inteiro. A fonte publica parte delas por estado ou por região, e importar esses dados completaria a comparação.
Chuva e decreto de seca, por estado
Em 15 dos 16 estados com dados, os anos com menos chuva têm mais decretos de seca. A relação é inversa, e por isso o coeficiente é negativo. Para o país inteiro, a mesma chuva dá -0,394. O segundo painel compara os decretos de seca com os dias secos consecutivos, a medida que o mecanismo físico da seca indica. As duas medidas dão resultados diferentes.
▸ Desastre climatológico registrado por município × Precipitação anual acumulada no Brasil
A barra parte do meio. Ela vai para a esquerda quando o coeficiente é negativo e para a direita quando é positivo. O número à direita também mostra o sinal. Para o país inteiro, este par dá -0,394. Nos 16 estados com dados suficientes, o coeficiente vai de -0,894 a 0,03.
- CE · Nordeste-0.894
- PB · Nordeste-0.845
- AM · Norte-0.785
- RN · Nordeste-0.538
- PE · Nordeste-0.508
- MG · Sudeste-0.460
- SE · Nordeste-0.416
- BA · Nordeste-0.382
- PI · Nordeste-0.317
- MT · Centro-Oeste-0.290
- SC · Sul-0.236
- RS · Sul-0.207
- PR · Sul-0.168
- AL · Nordeste-0.130
- ES · Sudeste-0.065
- SP · Sudeste0.030
▸ Desastre climatológico registrado por município × Maior sequência de dias secos do ano
A barra parte do meio. Ela vai para a esquerda quando o coeficiente é negativo e para a direita quando é positivo. O número à direita também mostra o sinal. Para o país inteiro, este par dá 0,175. Nos 16 estados com dados suficientes, o coeficiente vai de -0,516 a 0,643.
- SP · Sudeste-0.516
- SC · Sul-0.375
- AL · Nordeste-0.274
- PE · Nordeste-0.149
- SE · Nordeste-0.107
- RN · Nordeste-0.041
- PR · Sul0.057
- PI · Nordeste0.060
- BA · Nordeste0.164
- PB · Nordeste0.200
- MT · Centro-Oeste0.201
- MG · Sudeste0.316
- RS · Sul0.529
- CE · Nordeste0.604
- ES · Sudeste0.608
- AM · Norte0.643
A chuva média acompanha os decretos nos dois sentidos. Com o decreto climatológico, que é o de seca, o coeficiente do país é −0,39. No Ceará, ele chega a −0,894, e na Paraíba, a −0,845. Nesses estados, a variação da chuva de um ano para o outro acompanha quase toda a variação dos decretos de seca. Com o decreto hidrológico, que é o de enchente, a mesma série de chuva dá +0,37 no país e +0,774 no Rio Grande do Norte. Em Pernambuco e na Paraíba, dá +0,671.
Os dois sinais opostos vêm da mesma medida física: a mesma série de chuva, do mesmo estado. Ela desce quando um tipo de decreto sobe e sobe quando o outro sobe, porque os dois tipos de decreto contam coisas diferentes. Antes de os decretos serem separados por tipo, os dois movimentos entravam numa contagem só e se cancelavam. Era isso que mantinha pequeno o coeficiente do país.
A segunda medida física não tem o mesmo sinal em todos os estados, e esta página mostra isso junto com o resultado. A relação entre os dias secos consecutivos e o decreto de seca muda de sinal de um estado para outro: vai de -0,516 em SP a 0,643 em AM. O resultado estaria confirmado se as duas medidas da seca concordassem com os decretos. Hoje, só uma delas concorda.
O par mais forte da seção anterior não aparece aqui. As séries Área queimada, Maior acumulado de chuva em cinco dias, Dias com chuva acima de 20 mm só existem nesta base para o país inteiro. A fonte publica parte delas por estado ou por região, e importar esses dados completaria a comparação.
A mesma seca comparada com duas medidas físicas
Acima, o decreto de seca foi comparado com duas medidas diferentes do mesmo fenômeno, nos mesmos estados. A chuva anual mostra quanto choveu. Os dias secos consecutivos mostram quanto tempo se passou sem chover. A segunda medida conta a maior sequência de dias sem chuva no ano, isto é, a duração do período seco. Lado a lado, as duas medidas dão resultados diferentes.
▸ quantos estados têm o sinal esperado, em cada medida
Para a chuva, o sinal esperado é negativo, porque menos chuva deveria trazer mais decretos de seca. Para os dias secos, o sinal esperado é positivo, porque mais dias sem chuva deveriam trazer mais decretos. Cada barra conta quantos estados têm o sinal esperado naquela medida.
- chuva anual15
- dias secos consecutivos10
Os dias secos consecutivos, a medida que conta a duração do período seco, são a que menos acompanha os decretos. A chuva anual tem o sinal esperado em 15 dos 16 estados: onde choveu menos que no ano anterior, houve mais decretos de seca que no ano anterior. Os dias secos consecutivos têm o sinal esperado em apenas 10 dos 16. Nos outros estados, o sinal é o contrário: mais dias sem chuva vêm com menos decretos.
Há uma explicação possível, mas a plataforma não tem como escolher entre ela e outras. O decreto de seca responde à perda de safra e à falta de água para abastecimento. As duas dependem de quando a chuva faltou, e não só de quantos dias seguidos ela faltou. Um veranico, isto é, um período seco de trinta dias no meio da estação chuvosa, destrói a lavoura. Os mesmos trinta dias secos na estação seca são normais e não levam a nenhum decreto. A contagem de dias seguidos trata os dois casos como iguais. O total anual de chuva, sem ter sido pensado para isso, fica mais perto do que o decreto registra.
Esta seção mostra que a escolha da medida física define o resultado antes de qualquer cálculo, e isso vale para toda a página. Duas medidas do mesmo fenômeno, nos mesmos estados e nos mesmos anos, levam a conclusões opostas sobre a mesma relação. Quem publica só uma delas precisa dizer, junto com o resultado, qual medida escolheu.
O resultado testado com outra fonte de chuva
As seções acima usam a chuva do World Bank CCKP, estimada numa grade de reanálise. A base guarda uma segunda medida de chuva que nenhuma página usava: 8.506 dados de 628 estações do INMET, o Instituto Nacional de Meteorologia. Repetir a comparação com essa chuva é a única chance desta base de testar um resultado com outra fonte, porque 93,4% das séries com dados têm uma só fonte.
▸ chuva do INMET e decreto hidrológico (enchente), por estado
A barra mostra o coeficiente com a chuva do INMET. Ao passar o ponteiro, aparece também o coeficiente com a chuva do CCKP, no mesmo estado. O conjunto de estações é fixo: só entram as estações que publicaram dados em todos os anos do período. A rede do INMET cresce ao longo do tempo, e a média de um conjunto de estações que muda mediria o crescimento da rede junto com a chuva.
- RS · Sul0.758
- ES · Sudeste0.597
- DF · Centro-Oeste0.587
- SP · Sudeste0.575
- PR · Sul0.543
- RJ · Sudeste0.490
- MG · Sudeste0.488
- GO · Centro-Oeste0.486
- SC · Sul0.476
- BA · Nordeste0.222
▸ chuva do INMET e decreto climatológico (seca), por estado
A barra mostra o coeficiente com a chuva do INMET. Ao passar o ponteiro, aparece também o coeficiente com a chuva do CCKP, no mesmo estado. O conjunto de estações é fixo: só entram as estações que publicaram dados em todos os anos do período. A rede do INMET cresce ao longo do tempo, e a média de um conjunto de estações que muda mediria o crescimento da rede junto com a chuva.
- DF · Centro-Oeste0.686
- GO · Centro-Oeste0.430
- ES · Sudeste0.075
- PR · Sul0.047
- BA · Nordeste0.035
- RJ · Sudeste-0.092
- SP · Sudeste-0.133
- RS · Sul-0.185
- MG · Sudeste-0.192
- SC · Sul-0.391
Com a outra fonte de chuva, a relação com os decretos de enchente se repete, e a relação com os decretos de seca não se repete. Com a chuva do INMET, os dez estados que atendem ao critério têm coeficiente positivo com o decreto hidrológico. Nos nove estados que têm dados das duas fontes, o sinal é o mesmo do CCKP. Com o decreto climatológico, o INMET dá cinco coeficientes positivos e cinco negativos, e só três dos sete estados comparáveis mantêm o sinal.
A diferença entre os dois casos pode ser explicada pelo que cada medida consegue registrar. A enchente acontece em poucos dias, e uma estação registra bem a chuva que a causou. A seca é uma falta de água que se acumula sobre uma área grande e ao longo do tempo. A média de três a vinte e três estações num estado inteiro não a descreve bem. A reanálise em grade, que cobre todo o território, descreve melhor. A repetição com o INMET mostra quando a chuva medida em estações basta e quando não basta.
O critério exige estações com dados em todos os anos, e isso reduz a cobertura de vinte e seis estados para dez. O Ceará, o caso mais forte da comparação original, com −0,894, não atende ao critério: o estado não tem três estações com dados contínuos por um período longo. Por isso, a repetição com o INMET só confirma os resultados nos estados com dados suficientes.
A chuva do país e a chuva da bacia
A vazão média anual de cinco estações da ANA, a Agência Nacional de Águas, é a série hidrológica mais longa desta base, com 219 anos-estação entre 1969 e 2025. Um ano-estação é um ano de dados de uma estação. Essa série permite mostrar uma decisão de método. A mesma vazão é comparada com a chuva média do país e com a chuva dos estados onde fica a bacia que alimenta o rio naquela estação. A chuva do país aparece aqui justamente para mostrar que ela é a medida errada para este caso.
▸ a mesma vazão comparada com duas medidas de chuva
Cada estação tem duas barras, calculadas sobre a variação de um ano para o outro. A barra ciano usa a chuva média dos estados da bacia, e a barra grafite usa a chuva média do Brasil. Um modelo de IA (Claude) escreveu, durante a construção da base, a lista dos estados que correspondem a cada estação. A lista é necessária porque a série identifica o rio, e não o estado. A chuva da bacia é a média dos estados, porque milímetros de chuva de lugares diferentes não podem ser somados.
- Óbidos · bacia0.582
- Óbidos · nacional0.346
- Jatuarana · bacia0.652
- Jatuarana · nacional0.284
- Abunã · bacia0.115
- Abunã · nacional0.020
- Paratinga · bacia0.565
- Paratinga · nacional0.120
- Passagem BR-080 · bacia0.475
- Passagem BR-080 · nacional0.308
▸ vazão da estação e decretos de seca nos estados da bacia
Os decretos são uma contagem e, ao contrário da chuva, podem ser somados entre estados. Duas das cinco estações ficam de fora porque não têm dez variações anuais em comum com a série de decretos. A tabela mostra essa falta. Das três estações que entram, Paratinga é a única com trinta variações. As duas estações da Amazônia têm onze e doze. Um coeficiente calculado com tão poucas variações pode mudar muito por causa de um único ano.
- Óbidos · AM+PA-0.714
- Jatuarana · AM-0.636
- Paratinga · BA+MG-0.596
A chuva do país inteiro não acompanha a vazão do rio, e a chuva da bacia acompanha. Nas 5 estações, a chuva da bacia dá um coeficiente maior que a chuva do país, e a mediana, o valor do meio, passa de 0,284 para 0,565. Os dados de vazão são os mesmos nas duas contas. Muda só a área onde a chuva foi medida.
A exceção tem a mesma explicação. O rio Madeira, na estação de Abunã, fica em 0,115 mesmo com a chuva da bacia. É a estação cuja bacia fica, em maior parte, fora do Brasil: antes de Abunã, o rio recebe a água dos Andes bolivianos, que têm um regime de chuva próprio. A chuva que enche esse rio cai fora dos estados brasileiros usados no cálculo, e o coeficiente baixo mostra isso.
Com os decretos de seca, o sinal é negativo nas três estações que permitem a comparação: quando a vazão cai, o número de decretos nos estados da bacia sobe. O caso com mais dados é o rio São Francisco em Paratinga, com coeficiente de -0,596, calculado sobre trinta variações de um ano para o outro. As duas estações da Amazônia têm coeficientes maiores, mas com menos dados, porque ali a série de decretos só tem onze e doze variações. Nada disso prova causa. A chuva afeta a vazão e os decretos, e o decreto também depende de a prefeitura pedi-lo, como mostra a seção registro de desastre .
As cinco séries de vazão, ano a ano, estão em estado físico , com os anos de menor vazão de cada estação.
A desertificação, que esta página não mede
Seca e desertificação são coisas diferentes, e só a seca aparece acima. A seca acontece num ano, e a prefeitura assina um decreto sobre ela. A desertificação é a perda da capacidade do solo de produzir, ao longo de décadas, e nenhuma prefeitura decreta emergência por ela.
Esta página usa os decretos de desastre. O Atlas Digital de Desastres classifica os decretos em três tipos, seguindo a COBRADE, a classificação oficial de desastres do país: climatológico, hidrológico e meteorológico. Nenhum desses tipos registra a degradação do solo. Uma página feita a partir de decretos não pode medir um processo que não gera decreto. Coletar mais decretos não resolveria isso.
Para medir a desertificação, seria preciso outra série, que existe fora desta base: o mapa das áreas sujeitas à desertificação, por município. Enquanto essa série não entrar, a falta fica registrada em o que a base não tem .