As réguas

A régua em que uma medida foi feita decide se ela pode ser comparada com outra. São 42 em uso nesta base, reunidas em 6 famílias, e réguas da mesma família medem o mesmo fenômeno a partir de referências diferentes.
42 réguas6 famílias

411.358 observações carregam uma régua declarada. Outras 252.290 não carregam nenhuma, e isso não é omissão: contagem de desastre e área em hectare não dependem de régua de conversão.

As 6 famílias

Horizonte de aquecimento · 5 réguas

Quanto um gás aquece em relação ao dióxido de carbono, num horizonte de tempo. O metano fóssil tem GWP-100 de 29,8 e GWP-20 de 82,5; a mesma emissão vira quase três vezes mais CO2 equivalente conforme o horizonte, e cada relatório do IPCC revisa os valores. Somar séries em réguas diferentes é a confusão mais comum desta base, e a régua viaja com o valor para que ela não aconteça.

  • gwp100_ar564.651
  • gwp100_ar41.638
  • gwp100_ar21.590
  • gwp100_ar6513
  • gwp20_ar618

Linha de base da anomalia · 5 réguas

ANOMALIA DE TEMPERATURA É UMA DISTÂNCIA: a diferença, em graus, entre a temperatura média de um ano e a média de um período de referência escolhido. Esse período é a régua, e funciona como o zero da medida, de modo que a anomalia responde quanto o ano se afastou dele. Cada instituição escolhe o seu: GISTEMP e Berkeley medem contra 1951-1980, o HadCRUT contra 1961-1990, a NOAA contra 1901-2000, e o Acordo de Paris contra 1850-1900, que é o trecho anterior à industrialização e por isso é o único zero contra o qual a marca de 1,5 grau pode ser lida. O Copernicus publica o mesmo ano nas duas pontas e mostra o tamanho dessa escolha: em 2024 a mesma medida vale 1,6 grau contra 1850-1900 e 0,7 grau contra 1991-2020, 0,9 grau de distância entre dois números da mesma fonte, do mesmo ano e da mesma medida. Cada barra conta quantas observações desta base foram medidas contra cada zero.

  • anomalia_1951_1980321
  • anomalia_1901_2000176
  • anomalia_1961_1990176
  • anomalia_1850_190089
  • anomalia_1991_202087

Cenário de projeção · 4 réguas

A PROJEÇÃO É DE IMPACTO FÍSICO NO BRASIL: 8 grandezas do Climate Impact Explorer, entre elas dias de calor perigoso, duração da estação de fogo e área em seca severa, de 2015 a 2100, em passos de 5 anos. A régua diz que premissa sobre o mundo alimentou o cálculo: uma supõe que valem as políticas hoje em vigor, outra supõe que os países cumprem integralmente as metas que prometeram, e as duas restantes supõem que o aquecimento é contido em 1,5 e em 2 graus. AS QUATRO BARRAS TÊM A MESMA ALTURA porque a fonte publica as mesmas grandezas nos mesmos anos sob cada futuro: a barra conta cobertura, e a diferença entre os futuros mora no valor. Em 2100, o Brasil tem 30,2 dias de calor perigoso por ano sob 1,5 grau e 129,3 sob as políticas correntes; são 4,3 vezes mais dias, no mesmo país e no mesmo ano, e é por isso que as quatro curvas ficam separadas.

  • cenario_h_cpol144
  • cenario_h_ndc144
  • cenario_o_1p5c144
  • cenario_o_2c144

Contagem de crédito · 2 réguas

UM CRÉDITO DE CARBONO É UMA TONELADA de CO2 equivalente que um registro reconheceu como evitada ou removida por um projeto, e que uma empresa ou um país pode comprar para abater da própria emissão declarada. Quem compila é o Berkeley Carbon Trading Project, da Universidade da Califórnia, que reúne os cinco registros voluntários num arquivo aberto. Cada crédito carrega DUAS DATAS: o ano da safra, que é o ano em que a redução teria acontecido, e o ano da emissão, que é o ano em que o registro expediu o certificado, sempre depois, porque a verificação leva tempo. São os mesmos créditos repartidos por dois calendários, e o total é igual nas duas contagens; o que muda é o ano em que cada tonelada aparece. No Brasil, contado por safra, o pico é de 14 milhões de toneladas em 2015; contado por emissão, o pico é de 32 milhões em 2021, 6 anos depois. Daí a importância da régua: ela decide se o mercado brasileiro parece ter crescido ou encolhido na última década, e decide se a compensação que uma empresa declara num ano corresponde a uma redução daquele ano.

  • credito_por_safra517
  • credito_por_emissao399

Método de aviação · 2 réguas

Que método de inventário foi usado para a emissão da aviação. O método detalhado parte do plano de voo real; o simplificado parte do combustível vendido, e os dois devolvem números diferentes para o mesmo ano.

  • tier3a_gwp100_ar542
  • tier1_gwp100_ar540

Limiar de dossel · 8 réguas

A partir de que densidade de copa uma área conta como floresta. A mesma perda de árvore vira número diferente conforme o limiar, e a fonte publica 8 deles ao mesmo tempo. A seção seguinte mede a diferença entre eles e mostra o que ela faz com a conta de emissão.

  • dossel_30pct1.917
  • dossel_0pct25
  • dossel_10pct25
  • dossel_15pct25
  • dossel_20pct25
  • dossel_25pct25
  • dossel_50pct25
  • dossel_75pct25

O limiar de dossel, e por que ele muda a conta de emissão

Esta é a única família em que a mesma fonte publica o mesmo ano em todas as réguas ao mesmo tempo. Por isso ela permite medir o efeito da escolha sem comparar fontes: é a mesma medida, do mesmo satélite, contada com definições diferentes de floresta.

a mesma perda de 2025, contada em 8 definições de floresta

Cada barra é a perda de cobertura arbórea do Brasil no mesmo ano, contada a partir de uma densidade de copa diferente. Nenhuma delas está errada, e somar duas conta a mesma área duas vezes. Do limiar mais frouxo ao mais rígido a diferença é de 63%.

  • dossel_0pct3.769.473
  • dossel_10pct3.008.500
  • dossel_15pct2.979.908
  • dossel_20pct2.938.194
  • dossel_25pct2.909.949
  • dossel_30pct2.868.122
  • dossel_50pct2.626.860
  • dossel_75pct2.308.713

A escolha não é técnica no sentido de indiferente: ela decide que bioma entra na conta. O limiar de 0% conta qualquer área com árvore acima de cinco metros, e por isso alcança cerrado, caatinga aberta e plantação; o de 75% só conta floresta densa, e deixa de fora justamente a vegetação savânica que cobre boa parte do Brasil central. Num país que tem os dois extremos dentro da própria fronteira, mudar o limiar é mudar o mapa, e não a precisão.

E AQUI ESTÁ O EFEITO SOBRE A EMISSÃO. A série de emissão bruta de gases de efeito estufa de floresta que esta base guarda existe num limiar só, o de 30%, e a fonte não publica as outras sete. Quer dizer que a escolha de definição de floresta já está dentro do número de tonelada quando ele chega, e não há como refazê-la: a emissão é estimada multiplicando a área perdida pela densidade de carbono daquela área, de modo que subir o limiar tira da conta as áreas de copa mais rala, que são também as de menos carbono por hectare. A emissão não cai na mesma proporção que a área, e sem as outras sete séries ninguém consegue dizer em quanto ela cairia.

QUAL RELATÓRIO USA QUAL, e por que eles não convergem. O limiar de dossel é uma definição do produto global de sensoriamento, e o inventário nacional brasileiro não usa nenhum deles: ele parte de classes de transição de uso da terra, mapeadas pelo próprio país, e é o número que vale no reporte à Convenção. O SEEG parte do MapBiomas, que classifica cobertura e uso por bioma, e também não usa limiar de dossel. O PRODES mede corte raso na Amazônia Legal, por outro método e outro recorte. São quatro definições de floresta convivendo, e é por isso que esta base guarda as quatro séries separadas em vez de escolher uma como a verdadeira.

Cada régua, e o que ela carrega

Com quantas observações, em que séries e de que fontes. Régua que aparece em mais de uma fonte é onde a comparação entre fontes é possível; régua de fonte única é onde ela não é.